Com o Banco do Povo, sonhos se transformam em realidade. Francisco de Jesus, de 36 anos, tinha uma empresa de fundo de quintal. Hoje, ele vende máquinas industriais para 18 estados do País

Especial - 07/08/2012 - 09:40:19

Ainda na adolescência, Francisco Luciano Alves de Jesus aprendeu a profissão de torneiro mecânico com o "Seu Paraíba", proprietário de uma torneadora em Trindade. Paraíba mudou de cidade, mas Francisco continuou atendendo os clientes, em domicílio. Naquela época ele tinha uma bicicleta e percorria toda a cidade.

Nesta área da metalurgia, ele se identificava mais com a parte de montagem. Fazia trabalhos na garagem de casa, montando máquinas para padarias, sapatarias, cerâmicas, entre outros. "Desde pequeno gostava mais de construir um brinquedo do que brincar com ele. Trabalhando com algumas pessoas, tive a oportunidade de conhecer o processo industrial. Eu consertava máquinas em casa. Retirava tudo o que tinha dentro delas e criava os meus mecanismos. A minha ideia era fabricar as minhas próprias, mas não tinha ferramentas nem recursos para isso", conta.

Por não ter um local apropriado, Francisco sentia que o trabalho não era valorizado como queria. Um amigo sugeriu que ele fizesse o cadastro no programa Banco do Povo, que dá oportunidade para os microempreendedores através da capacitação e da liberação de crédito para investimento e ampliação no negócio.

dimensao-maquinas3À primeira vista, ele ficou com o pé atrás e até achava que a tentativa resultaria em nada."Eu dei o nome até sem esperança porque já estava acostumado a bater em tantas portas.Foi agendada uma visita de uma agente de crédito. No dia, me lembro que ela puxou um banquinho e, enquanto conversava comigo, ia fazendo as anotações. No fim, disse que a liberação do crédito estava aprovada. Foi um empréstimo de R$1 mil. Com esse dinheiro pude comprar uma esmerilhadeira para cortar ferro, materiais de soldagem e ferramentas pequenas. Pude trabalhar com mais facilidade, pegar serviços maiores e assim, veio a oportunidade de comprar novas ferramentas", lembra.

O "empurrãozinho" não parou por aí. Passado um mês, Francisco fez o treinamento oferecido pelo Banco do Povo, em parceria com o Sebrae e, assim, aprendeu uma série de noções financeiras para melhor administrar o próprio negócio. "Até então, eu não sabia como colocar preço no que fazia, reinvestir o capital, identificar o dinheiro que entrava, nem lidar com momentos de crise, ou fazer a captação de clientes", relata.

dimensao-maquinas4Os negócios foram crescendo cada vez mais. Hoje, a Dimensão Máquinas, sediada em Trindade, ocupa a área de 200 m² e emprega oito funcionárias, todas com carteira de trabalho assinada, e uma Jovem Aprendiz. O trabalho não para. Diariamente, são fabricadas máquinas para atender a indústria química em geral, como de produção de tintas, revestimentos e cosméticos. O espaço está ficando pequeno e ele já pensa em se mudar para um lugar maior.

Os primeiros clientes eram donos de seis fábricas instaladas nas proximidades. Foi a divulgação da empresa pelo site na internet, e também pelas redes sociais e vídeos postados no Youtube em diversos idiomas, que promoveu um enorme avanço na carteira de clientes. Já são 18 em todo o País, que fazem suas encomendas pela internet. "Aquilo que era muito pequenininho está muito além do que eu podia sonhar ou imaginar. Temos 1,2 mil e-mails de orçamentos aguardando resposta. Se antes eu ia atender os clientes na bicicleta, hoje embarco em um avião para vários cantos do País. Sempre digo que tudo isso começou com esse programa. É grande o sentimento de gratidão", declara orgulhoso.

dimensao-maquinas5Mulheres que brilham na metalurgia

Quando falamos em metalurgia, logo vem à cabeça a imagem de vários homens mexendo com todo esse trabalho, considerado "pesado". Mas Francisco inovou. O que se vê em sua fábrica é de se espantar, no bom sentido, claro. Oito jovens mulheres se dividem na linha de produção, com as etapas de corte de chapas de aço, usinagem, soldagem e finalmente a montagem de máquinas.

A iniciativa de empregar mulheres começou por acaso em 2009, quandodimensao-maquinas7uma ex-secretária se dispôs a ajudar para antecipar a entrega de um cliente. O capricho e a dedicação no que fazem são diferenciais em relação aos homens. " Ela pegou uma esmerilhadeira, colocou as luvas e fez o acabamento em uma máquina. No final da tarde, vi que o trabalho dela tinha ficado bem melhor do que os dois rapazes que trabahavam comigo. No dia seguinte, ela continuou com o trabalho de secretária, mas em seguida perguntou o que faria aquele dia", recorda.

dimensao-maquinas9Bastou uma abrir caminho. A soldadora Ludmilla Soares Ramos, de 27 anos, é a mais velha da turma. Ela também era secretária, mas ficou encantada com o serviço. Apesar de se identificar mais com a solda, ela, como todas as outras, domina todos os equipamentos e acompanhou o crescimento do chefe ao longo dos últimos anos. "Gosto do que faço e me sinto realizada. Algumas pessoas ficam espantadas, mas levamos a sério e somos uma equipe", diz.

Patrícia Helen Bispo Pereira, de 20 anos, quer ser engenheira mecânica. Odimensao-maquinas8sonho é motivado pela experiência na fábrica de máquinas. Antes, ela auxiliava a mãe que é costureira, mas deixou o trabalho delicado para integrar o time da Dimensão Máquinas. Não se arrepende. "Aqui colocamos em prática noções de matemática para calcular o fundo das máquinas, as peças da engrenagem. Medidas que eu nunca imaginei que fosse usar", declara.

dimensao-maquinas10A vaidade é uma marca dessas meninas. No dia a dia, nenhuma delas abre mão do batom e da maquiagem. Joice Iolene da Silva, de 24 anos, é encarregada do corte. "Eu fiquei cinco anos na área de vendas e a Ludmilla que eu conhecia da igreja me falou sobre o serviço. Achei bem diferente e o Francisco me ensinou direitinho. Por mais que esse seja visto como um trabalho pesado, nós temos potencial e a cada dia vamos nos aperfeiçoando, com a possibilidade de novas criações e aprendizado diferente . Vale a pena. É muito bom", afirma.

A mais jovem, Mônyky Kelly da Silva, de 14 anos, é a aprendiz da turma e tem a tarefa de divulgar o trabalho nas redesdimensao-maquinas12 sociais. "Eu trabalhava na sonoplastia da igreja, de onde conhecia o Francisco. Ele viu que tinha vocação para mexer com mídia e me chamou para trabalhar. Aqui somos uma família, todos ajudam um ao outro", define. Vale ressaltar que a fábrica segue todas as regras de limite de postura, peso e também o uso de equipamentos de segurança e de proteção individual.


dimensao-maquinas11Francisco já treinou 47 pessoas, entre adolescentes e adultos. Uma forma de retribuir aos outros pela sua conquista. "Já tivemos estagiárias de engenharia. Alunos de faculdades de Administração vêm aqui para conhecer o processo, saber como que eu nunca estudei administração e tenho tantas perspectivas de melhora. O sucesso dessa administração é fruto do treinamento que eu tive, da acolhida do Banco do Povo, do Sebrae. Pelas oportunidades que eu estou tendo de contar essa história para o povo que é uma oportunidade de divulgar o que eu faço e contar que quando a gente tem um sonho e acredita e acha alguém que dá a mão a gente pode ir além", finaliza.

Exportações

"Não basta dar o peixe. É preciso ensinar a pescar". Esse era o slogan do programa. Francisco obteve três empréstimos pelodimensao-maquinas2 Banco do Povo, nos valores de R$1 mil, R$1,5 mil e R$ 2 mil. Agora, ele tem um novo desafio pela frente, o de exportar o que produz. E já há vários países interessados como Chile, Venezula, México e Espanha.

dimensao-maquinas6O sucesso de Francisco serve de inspiração para quem quer alavancar seu negócio. Com frequência, ele tem sido convidado para falar sobre sua história em palestras ministradas pela equipe do Banco do Povo e Sebrae aos microempreendedores. "O sucesso dessa administração é fruto do treinamento que eu tive, da acolhida do

Banco do Povo e do Sebrae. Estou tendo várias oportunidades de contar essa história para o povo que e mostrar o que eu faço. Quando a gente tem um sonho, acredita, e acha alguém que dê a mão a gente pode ir além", finaliza.

Em 13 anos, Banco do Povo liberou R$ 163 milhões

O Banco do Povo, programa ligado à Secretaria de Indústria e Comércio (SIC), foi criado em 1999, com o objetivo de atender os empreendedores de fundo de quintal que não tinham acesso às linhas de crédito, possibilitando a formalização do negócio. Nesses 13 anos, foram firmados 93.835 contratos, totalizando R$163,426 milhões em liberação de créditos e 135.273 empregos gerados por meio do programa.

O valor dos empréstimos liberados varia de R$300 a R$4 mil ao juro de 0,6% ao mês. O pagamento pode ser feito em até 18 meses. O superintendente do Banco do Povo, Osmar Moura, esclarece que os recursos devem ser aplicados na aquisição de máquinas, equipamentos e máteria-prima. A liberação do crédito é rápida, podendo ocorrer em dois dias em alguns casos. "Os interessados devem procurar a agência do Banco do Povo do seu município. É preciso morar há pelo menos três anos na mesma cidade. São exigidos a carteira de identidade, CPF, comprovante de endereço e dois orçamentos do que a pessoa pretende comprar", explica.

A parceria com o Sebrae é no sentido de propiciar a capacitação para que essas pessoas regularizem o negócio e possam se tornar microempreendedoras. Os consultores do Sebrae fazem uma visita, diagnosticam os pontos negativos e positivos e repassam todas as noções de gestão que podem ser aplicadas para o sucesso da empresa.

O Banco do Povo está presente em 235 municípios goianos, com mais de 300 agentes de crédito. Frequentemente, os serviços são divulgados em palestras nos mutirões do Vapt Vupt Móvel, da Secretaria da Cidadania, que percorre as cidades do interior levando uma série de benefícios para a população.

Fonte: Goiás Agora